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maio 18, 2014

Apesar de você: PRIMEIRO CAPÍTULO [1]

PRIMEIRO CAPÍTULO
Quando cheguei à sala de aula, avistei um garoto sozinho no canto oposto ao meu sem falar com ninguém. Sentei-me na última carteira do canto esquerdo e cumprimentei todos ao redor, questionando-os:
- Quem é aquele?
- Aluno novo, transferido de São Paulo. Estranho à beça – respondeu Luna, minha melhor amiga. Com aqueles olhões azuis, pequena de altura e com os cabelos loiros escorridos acima dos ombros, era uma das garotas mais bonitas do colégio.
Comecei a observá-lo e o professor de Literatura entrou na classe fazendo aquele escândalo de sempre sobre o “livro da semana”. Ano de vestibular é foda. Apenas me concentrei naquele misterioso garoto branco de cabelos escuros caídos sobre os olhos. Ele era lindo e não tinha nada de estranho, apenas era diferente. Senti alguém me cutucando e voltei à atenção ao professor que ainda falava sobre o bendito livro, dessa vez, diretamente para mim.

- Não sei se ouviu, mas quem não leu a obra de Drummond “Sentimento do mundo” ganhará um ZERO bem grande. E sem desculpas dessa vez, querida Veridiana.   
- Um zero não pode ser grande, é apenas um zero. Sem valor. Sem tamanho. Assim como eu, nós combinamos.
- Acredito que terá mais um para sua coleção? – disse, virando as costas e retornando à grande mesa cheia de livros e empoeirada de giz.
- Não meu caro, eu li o livro. – ergui minha sobrancelha querendo mostrar orgulho. Pela primeira vez, eu realmente li alguma coisa que ele pedira. 
- Não me diga. Pode passar para a próxima piada do dia.
Levantei-me sem permissão e parei em frente à turma. Abri a boca e, cheia de sentimentos, comecei:
- “Na noite lenta e morna, morta noite sem ruído, um menino chora. O choro atrás da parede, a luz atrás da vidraça perdem-se na sombra dos passos abafados, das vozes extenuadas, e, no entanto, se ouve até o rumor da gota de remédio caindo na colher.” Menino chorando na noite, sétimo poema da obra. Meu preferido. Ser triste dói. Obrigada. – voltei à minha carteira, balançando meus cabelos castanhos e compridos como charme.
Todos levantaram de suas cadeiras e aplaudiram, exceto o novato que me olhou com indiferença como se não gostasse da minha atitude. Ignorei-o e o professor me elogiou, finalmente. A aula continuou e alguém tagarelou mais sobre os poemas de Drummond, mas o garoto não dizia nada. E meus olhos continuavam perdidos nele. Ele estava tão camuflado que dava a impressão de apenas mais uma carteira vazia na sala. Senti que o professor olhava para mim enquanto explicava alguma coisa e, percorrendo meu olhar, descobriu a presença do novo garoto na turma.
- Vejam, tem alguém ali. Quem é você?
A classe toda voltou os olhos para ele. O garoto, sério e com a cara fechada, demonstrou não estar à vontade para responder. Soltou uma voz seca:
- Carlos Eduardo. Apelido, Cadu. – disse, olhando diretamente para o professor.
- Prazer, Malu – a própria gritou lá da frente com voz de vadia.
Cadu não olhou para ela e continuou sério, o que me fez rir escandalosamente. Infelizmente, eu chamo a atenção mesmo sem querer. Digamos que é minha “espontaneidade”.  Percebi que ele olhou e acabou soltando um leve sorriso ao ver o quão louca era minha gargalhada. Olhei para ele sentido uma pequena timidez e retribui o sorriso, até que Malu começou a jogar palavras ofensivas e começou aquela baderna de sempre. Eu gritando, alguém me segurando, o professor pedindo silêncio, ela gritando, alguém a segurando, o professor pedindo silêncio. Eu odeio aquela magrela dos dentes perfeitos e peitos enormes. Olhei para Cadu e vi seus olhos arregalados, como se aquela cena o levasse para uma realidade fora do comum. Rapidamente sentei e pedi que o professor prosseguisse. Alguns comentários rolaram pela sala, porque normalmente eu teria puxado os cabelos dela e pararíamos na diretoria, meu pai receberia a ligação com desgosto e uma surra com cinto de couro me aguardaria no "lar doce lar". Pela primeira vez senti vergonha da minha atitude. Fiquei quieta o resto da aula até a sirene gritante soar, anunciando o intervalo. Luna pegou minha mão e me chamou para descer.
- Não quero. Trouxe lanche de casa. Vou ficar aqui. Traz uma água?
- Claro. Você tá bem? – perguntou, me olhando com aquela preocupação de sempre.
Assenti com a cabeça e pedi que descesse. Luna era apaixonada por um garoto do segundo ano, Pedro, um surfista galinha de mão cheia. (Quase caí na dele enquanto fumávamos atrás da quadra). Minha amiga amava ficar com ele nos intervalos, e ele parecia gostar de ficar com ela. Todo o dia era a mesma coisa, descíamos, eles ficavam juntos e eu ficava sozinha na grama tomando sol. Engraçado que no Mendes só tem gente rica. Gente rica e eu. Só estou aqui pela minha mãe. Com certeza ela trepou com o diretor e ele resolveu me dar uma bolsa. Acho que faz 5 meses que não a vejo. Lembro que tomei uma suspensão por alguma coisa e ela foi chamada em um horário fora do atendimento. Seja lá o que ela fez, resolveu. Fiquei rolando esse pensamento até ser interrompida pelo barulho chato de um saco de salgadinho sendo aberto do outro lado. De cabeça abaixada, Cadu comia devagar olhando pela janela o movimento da rua. O silencio era tanto que eu ouvia perfeitamente sua mastigação. Eu me senti estranha ao olhar para ele. Queria me aproximar, mas algo me impedia. Minha respiração entregava meu nervosismo, e de tão forte, ele me notou. Ele soltou um sorriso entre as mastigadas e eu sorri novamente.
- Você quer? – levantou e apontou o saco de Baconzitos em minha direção. Meu preferido. Eu queria.
- Obrigada, mas eu trouxe de casa! – fiquei tímida, mas tirei o pote transparente com dois pedaços de bolo de fubá comprado na padaria. Um pedaço era para Luna, como sempre. – Quer bolo de fubá?
- É claro, eu amo bolo de fubá. – ele pulou rápido as três carteiras que nos separavam. Achei engraçado ele daquele jeito, como se fosse o último pedaço de bolo do mundo. – Nunca nega-se bolo de fubá. Bolo de fubá e café.
- Bolo de fubá e café – repeti sorrindo. 
Alguma coisa diferente estava acontecendo no meu interior. Meu estomago revirava e meus olhos dificilmente encaravam os dele. E essa sensação diferente era boa demais.

7 comentários:

  1. Aff simplesmente demais, acabou de sair e estou esperando maissssss.

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  2. Adorei!! Bem na realidade de hoje em dia... Sucesso minha linda <3

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  3. Estou amando, parabens Isa <3

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  4. Parabéns, muito bom

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  5. Nossa muito bom, vo espera ansiosa o proximo..

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  6. Nossa muito bom, vo espera ansiosa o proximo..

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  7. Bruna Oliveiraagosto 11, 2014

    Adorei , estou esperando ansiosamente o próximo capítulo.

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