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Comecei a comer meu pedaço de bolo, e vi com o canto dos olhos
que ele me encarava ininterruptamente. Era complicado agir normalmente daquele jeito,
então comi delicadamente para evitar que algum farelo saltasse da minha boca.
Ele pegou o pedaço restante no pote e misturou com algumas mastigadas de salgadinho.
Achei estranho, mas eu também sempre fazia essas misturebas. Algumas me davam
dores de estômago insuportáveis, como iogurte e paçoca. Parece que pisquei os
olhos e o sinal tocou. Foi o intervalo mais rápido de todos os anos do colégio.
Aos poucos, a galera chegava na sala. Achei que Cadu iria levantar, mas continuou
ao me lado, mastigando, mastigando, engolindo, mastigando. Eu escutava todos os
seus sons. Não costumava ficar quieta ao lado de garotos, na verdade, ao lado
de ninguém. Mas dessa vez, eu não conseguia falar nada, apenas o olhava e
sorria sutilmente.
Todos que entravam dirigiam os olhos diretamente para nós dois.
Era até engraçado, e Cadu parecia se divertir. Notei que ele sorria e abaixava
a cabeça, um pouco envergonhado, quando éramos o centro das atenções por um
instante. Até Luna entrar na sala e encostar na porta, nos olhando:
- Quem você pensa que é pra comer o meu pedaço de bolo?
Ele ficou sério e parou de comer imediatamente. Olhando para
ela, Cadu colocou o pedaço de bolo quase acabado no pote, se levantou e ajeitou
a cadeira. Retornou ao seu canto solitário novamente com aqueles pulinhos
desengonçados. Sem dizer absolutamente nada, Luna seguiu com os olhos todos os
movimentos de Cadu, que a ignorou, deixando-a mais irritada. Eu sinceramente
achei que fosse uma brincadeira. Luna sempre come meus bolos reclamando, porque
diabos ela implicou que o queria tanto? Ela caminhou até a carteira à minha
frente, olhando para ele com a cara fechada. Encarei-a, com as sobrancelhas
franzidas e comecei a rir.