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maio 06, 2014

Apesar de você: Prólogo


Acordei com os raios fortes de um típico sol da tarde invadindo o quarto pelas frestas da persiana, que atingiam diretamente os meus olhos. Como já passava das três horas da tarde, resolvi me mover para evitar o sol e vi que Cadu não estava ao meu lado. “Ele deve estar na sala”, pensei. Estiquei o corpo, ainda preguiçosa, e empurrei Nilo, nosso gato vira-lata de estimação, para fora da cama. Nilo deu aquele miado ensurdecedor e minha cabeça latejou de dor. Embora a noite tenha sido bem dormida, meu corpo doía e ardia de cansaço. A casa estava extremamente silenciosa. Cadu não estava ouvindo pela trigésima vez o disco Racional de Tim Maia. Estranhei e vagarosamente fui tirando a coberta de lã que cobria meu corpo. Peguei o roupão dele para cobrir minha roupa íntima e levantei sem vontade. Então a realidade caiu sobre mim. Ele não estava na sala. Ele não estava ali. Ele não estava comigo. Algo me puxou para baixo e eu caí no chão. Talvez fora o cansaço, mas era apenas a tristeza. Minhas pernas morenas encostaram-se ao assoalho de madeira, frio como meu coração. Coloquei a cabeça na cama e o teto girava. Minha vontade era de gritar, mas não havia forças suficientes para isso. De repente, vomitei um líquido viscoso em meus pés e as lágrimas escorreram. Estava sozinha. Sem a única forma de amor que um dia eu havia recebido. Eu queria ligar para a minha mãe, mas ela nunca esteve presente em minha vida. Meu pai está morto. Não conseguia respirar e o desespero me consumiu. Eu definitivamente estava sozinha. Permaneci no chão por alguns minutos, deitada com os joelhos dobrados e grudados ao corpo, até que o telefone tocou. Arrastei-me para atender, mas não cheguei a tempo.
RESPIREI FUNDO e fui em direção ao banheiro para tomar um banho. Despi o pouco que tinha e deixei a água fria escorrer pelo meu corpo para que me acordasse. Um turbilhão de dúvidas me atormentava. O que vou fazer agora?