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Comecei a comer meu pedaço de bolo, e vi com o canto dos olhos
que ele me encarava ininterruptamente. Era complicado agir normalmente daquele jeito,
então comi delicadamente para evitar que algum farelo saltasse da minha boca.
Ele pegou o pedaço restante no pote e misturou com algumas mastigadas de salgadinho.
Achei estranho, mas eu também sempre fazia essas misturebas. Algumas me davam
dores de estômago insuportáveis, como iogurte e paçoca. Parece que pisquei os
olhos e o sinal tocou. Foi o intervalo mais rápido de todos os anos do colégio.
Aos poucos, a galera chegava na sala. Achei que Cadu iria levantar, mas continuou
ao me lado, mastigando, mastigando, engolindo, mastigando. Eu escutava todos os
seus sons. Não costumava ficar quieta ao lado de garotos, na verdade, ao lado
de ninguém. Mas dessa vez, eu não conseguia falar nada, apenas o olhava e
sorria sutilmente.
Todos que entravam dirigiam os olhos diretamente para nós dois.
Era até engraçado, e Cadu parecia se divertir. Notei que ele sorria e abaixava
a cabeça, um pouco envergonhado, quando éramos o centro das atenções por um
instante. Até Luna entrar na sala e encostar na porta, nos olhando:
- Quem você pensa que é pra comer o meu pedaço de bolo?
Ele ficou sério e parou de comer imediatamente. Olhando para
ela, Cadu colocou o pedaço de bolo quase acabado no pote, se levantou e ajeitou
a cadeira. Retornou ao seu canto solitário novamente com aqueles pulinhos
desengonçados. Sem dizer absolutamente nada, Luna seguiu com os olhos todos os
movimentos de Cadu, que a ignorou, deixando-a mais irritada. Eu sinceramente
achei que fosse uma brincadeira. Luna sempre come meus bolos reclamando, porque
diabos ela implicou que o queria tanto? Ela caminhou até a carteira à minha
frente, olhando para ele com a cara fechada. Encarei-a, com as sobrancelhas
franzidas e comecei a rir.
- Eu não entendi nada. Mas amo você, superprotetora. Você quer
bolo? – ofereci a migalha que sobrara do pedaço de Cadu.
- Com baba de paulista? Não, obrigada. Acho que assustei o
garoto né? Ah, sua água! – Luna me entregou uma garrafinha pequena, falando em
tom alto para chamar a atenção dele. Em vão.
Eu nem lembro exatamente o que aconteceu depois. Era aula de
Química e a professora tinha um cabelo vermelho berrante que me dava dores de
cabeça. Eu mal conseguia olha para lousa, então preferi dormir. A sala estava
um silêncio maravilhoso, e eu conseguia ouvir uma voz tão calma lá na frente falando
alguma coisa sobre plástico. “Plástico, quando chegar em casa estudo...”. Os
professores não chamavam mais a minha atenção. Foram orientados a me ignorarem
para não dar em confusão. Nunca entendi, sempre fui um doce de aluna.
Acordei
com alguém gritando na minha cara: "Hora de ir embora." Aquilo me
estressou pro resto da semana. Fui arrumando minhas tralhas espalhadas sobre a
mesa e jogando-as dentro da minha mochila de pano. Eu amava aquela mochila, o
mundo cabia dentro dela e eu nem precisava arrumar nada. Luna me deu um beijo e
disse que eu estava com uma marca horrível na bochecha dos arames do caderno.
Esfreguei as mãos no rosto e fui levantando ainda meio
confusa, o sinal bateu e sai da sala sem falar com ninguém. Continuei atordoada pelos
corredores do Mendes, cheio de garotinhas ricas que me davam nojo. Acho que já
deixei claro demais que odeio esse colégio. Alguém puxou meu braço esquerdo e
senti um pequeno ódio crescendo dentro do meu corpo, pronto para sair e matar alguém. Puxei de volta e a mão do alguém estourou sem
dó minha pulseira-amuleto, fazendo com que as pedrinhas voassem pelo ar. Virei
imediatamente e comecei a gritar:
- O que é caralho? Não me deixam mais ir embora? Que saco!
Cadu olhou assustado e começou a pegar as pedrinhas que caiam,
desesperado.
- É, des-desculpa. Eu não queria fazer isso. Desculpa. Desculpa
mesmo. Pode ir.
- Ah, é você. – Respirei e abaixei sem vontade, ajudando-o a pegar
as pedrinhas que faltavam. – Eu amava essa pulseira. Ela era minha pulseira da
sorte. Se eu quebrar uma perna hoje, a culpa é toda sua. Onde já se viu sair
puxando os outros por aí. Depois eu sou a má educada. Eu. Eu.
- Acho que você precisa desestressar. Achei que as pessoas aqui
eram mais tranquilas. Me dê as pedrinhas, eu faço outra pra você.
- Não precisa. – levantei e joguei-as na bolsa.
- Tudo bem, eu faço com essas e acrescento algumas que tenho
comigo. – esperei que ele levantasse e caminhamos juntos até a saída. Ele pegou
uma caixinha vermelha na bolsa e colocou todas as pedrinhas da minha falecida
pulseira ali. Achei interessante tudo aquilo, mas continuei com a cara de brava.
- Eu não quero. Agora, pode dizer o que você queria antes desse
transtorno todo.
- Eu queria te falar tchau.
Assim que ele falou, paramos no meio do pátio e comecei a rir.
Achei aquilo tão fofo e ao mesmo tempo tão tosco que foi engraçado. Olhei para
ele e vi que seus pequenos olhos castanhos também sorriam. Saímos do colégio e encostei-me
ao portão, eu queria esperar ele ir embora. Mas acho que ele pensou o mesmo,
pois parecia estar me esperando dizer algo.
- Onde você mora? – perguntei.
- A 8 quadras daqui. Uma caminhada tranquila.
- Moro a 15. Esquerda ou direita?
- Esquerda.
Caminhei em direção as bicicletas amarradas no portão,
tagarelando:
- Hoje é o seu dia de sorte. Vai ganhar uma carona da melhor
motorista de bicicletas do Rio de Janeiro. É motorista de bicicletas que se diz? Motociclista. Ah, que se dane. Vem comigo. – peguei o seu braço e
chegamos à minha bicicleta Caloi dos anos 80 caindo aos pedaços, vermelha e de
garupa acolchoada que eu mesma havia feito usando retalhos.
Ele sorriu, mas parecia estar com medo. Ficou parado me olhando com aquela cara de dúvida. Indaguei:
– E aí,
você vem?
Incrivel como sempre, aguardando os proximossss
ResponderExcluirMuito bom. Escreve muito bem! Só acho que como início deveria dar aos leitores algo mais fascinante para que se prendam na história.
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