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junho 15, 2014

Apesar de você: PRIMEIRO CAPÍTULO [2]

[...]
Comecei a comer meu pedaço de bolo, e vi com o canto dos olhos que ele me encarava ininterruptamente. Era complicado agir normalmente daquele jeito, então comi delicadamente para evitar que algum farelo saltasse da minha boca. Ele pegou o pedaço restante no pote e misturou com algumas mastigadas de salgadinho. Achei estranho, mas eu também sempre fazia essas misturebas. Algumas me davam dores de estômago insuportáveis, como iogurte e paçoca. Parece que pisquei os olhos e o sinal tocou. Foi o intervalo mais rápido de todos os anos do colégio. Aos poucos, a galera chegava na sala. Achei que Cadu iria levantar, mas continuou ao me lado, mastigando, mastigando, engolindo, mastigando. Eu escutava todos os seus sons. Não costumava ficar quieta ao lado de garotos, na verdade, ao lado de ninguém. Mas dessa vez, eu não conseguia falar nada, apenas o olhava e sorria sutilmente.
Todos que entravam dirigiam os olhos diretamente para nós dois. Era até engraçado, e Cadu parecia se divertir. Notei que ele sorria e abaixava a cabeça, um pouco envergonhado, quando éramos o centro das atenções por um instante. Até Luna entrar na sala e encostar na porta, nos olhando:
- Quem você pensa que é pra comer o meu pedaço de bolo?
Ele ficou sério e parou de comer imediatamente. Olhando para ela, Cadu colocou o pedaço de bolo quase acabado no pote, se levantou e ajeitou a cadeira. Retornou ao seu canto solitário novamente com aqueles pulinhos desengonçados. Sem dizer absolutamente nada, Luna seguiu com os olhos todos os movimentos de Cadu, que a ignorou, deixando-a mais irritada. Eu sinceramente achei que fosse uma brincadeira. Luna sempre come meus bolos reclamando, porque diabos ela implicou que o queria tanto? Ela caminhou até a carteira à minha frente, olhando para ele com a cara fechada. Encarei-a, com as sobrancelhas franzidas e comecei a rir.

- Eu não entendi nada. Mas amo você, superprotetora. Você quer bolo? – ofereci a migalha que sobrara do pedaço de Cadu.
- Com baba de paulista? Não, obrigada. Acho que assustei o garoto né? Ah, sua água! – Luna me entregou uma garrafinha pequena, falando em tom alto para chamar a atenção dele. Em vão.
Eu nem lembro exatamente o que aconteceu depois. Era aula de Química e a professora tinha um cabelo vermelho berrante que me dava dores de cabeça. Eu mal conseguia olha para lousa, então preferi dormir. A sala estava um silêncio maravilhoso, e eu conseguia ouvir uma voz tão calma lá na frente falando alguma coisa sobre plástico. “Plástico, quando chegar em casa estudo...”. Os professores não chamavam mais a minha atenção. Foram orientados a me ignorarem para não dar em confusão. Nunca entendi, sempre fui um doce de aluna.
 Acordei com alguém gritando na minha cara: "Hora de ir embora." Aquilo me estressou pro resto da semana. Fui arrumando minhas tralhas espalhadas sobre a mesa e jogando-as dentro da minha mochila de pano. Eu amava aquela mochila, o mundo cabia dentro dela e eu nem precisava arrumar nada. Luna me deu um beijo e disse que eu estava com uma marca horrível na bochecha dos arames do caderno. Esfreguei as mãos no rosto e fui levantando ainda meio confusa, o sinal bateu e sai da sala sem falar com ninguém. Continuei atordoada pelos corredores do Mendes, cheio de garotinhas ricas que me davam nojo. Acho que já deixei claro demais que odeio esse colégio. Alguém puxou meu braço esquerdo e senti um pequeno ódio crescendo dentro do meu corpo, pronto para sair e matar alguém. Puxei de volta e a mão do alguém estourou sem dó minha pulseira-amuleto, fazendo com que as pedrinhas voassem pelo ar. Virei imediatamente e comecei a gritar:
- O que é caralho? Não me deixam mais ir embora? Que saco!
Cadu olhou assustado e começou a pegar as pedrinhas que caiam, desesperado.
- É, des-desculpa. Eu não queria fazer isso. Desculpa. Desculpa mesmo. Pode ir.
- Ah, é você. – Respirei e abaixei sem vontade, ajudando-o a pegar as pedrinhas que faltavam. – Eu amava essa pulseira. Ela era minha pulseira da sorte. Se eu quebrar uma perna hoje, a culpa é toda sua. Onde já se viu sair puxando os outros por aí. Depois eu sou a má educada. Eu. Eu.
- Acho que você precisa desestressar. Achei que as pessoas aqui eram mais tranquilas. Me dê as pedrinhas, eu faço outra pra você.
- Não precisa. – levantei e joguei-as na bolsa.
- Tudo bem, eu faço com essas e acrescento algumas que tenho comigo. – esperei que ele levantasse e caminhamos juntos até a saída. Ele pegou uma caixinha vermelha na bolsa e colocou todas as pedrinhas da minha falecida pulseira ali. Achei interessante tudo aquilo, mas continuei com a cara de brava.
- Eu não quero. Agora, pode dizer o que você queria antes desse transtorno todo.
- Eu queria te falar tchau.
Assim que ele falou, paramos no meio do pátio e comecei a rir. Achei aquilo tão fofo e ao mesmo tempo tão tosco que foi engraçado. Olhei para ele e vi que seus pequenos olhos castanhos também sorriam. Saímos do colégio e encostei-me ao portão, eu queria esperar ele ir embora. Mas acho que ele pensou o mesmo, pois parecia estar me esperando dizer algo.
- Onde você mora? – perguntei.
- A 8 quadras daqui. Uma caminhada tranquila.
- Moro a 15. Esquerda ou direita?
- Esquerda.
Caminhei em direção as bicicletas amarradas no portão, tagarelando:
- Hoje é o seu dia de sorte. Vai ganhar uma carona da melhor motorista de bicicletas do Rio de Janeiro. É motorista de bicicletas que se diz? Motociclista. Ah, que se dane. Vem comigo. – peguei o seu braço e chegamos à minha bicicleta Caloi dos anos 80 caindo aos pedaços, vermelha e de garupa acolchoada que eu mesma havia feito usando retalhos.  
Ele sorriu, mas parecia estar com medo. Ficou parado me olhando com aquela cara de dúvida. Indaguei:
 – E aí, você vem? 

2 comentários:

  1. Incrivel como sempre, aguardando os proximossss

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  2. Muito bom. Escreve muito bem! Só acho que como início deveria dar aos leitores algo mais fascinante para que se prendam na história.

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